Ela tinha um problema. Escola, emprego, envelhecer, ir: você consegue "ir indo". Mas um pensamento pulsava como um coração na sua mente:"E se eu sempre for e terminar sendo alguém que eu não sou. E se "eu for alguém que eu não sou".
Olhar no espelho e se reconhecer era o problema dela.
Todo mundo achava ela bem chata por isso. Eu inclusive, confesso.
Um dia veio conversar comigo. Me perguntou:
"- A sociedade manda em você, seus pais mandam em você, o governo manda em você, todo mundo manda em você. E você, qual a sua opinião sobre você?"
Minha resposta para isso eu não me lembro. Deve ter sido uma gracinha tipo, "eu e mim mesmo nos amamos" ou alguma palhaçada do tipo. Não sabia da gravidade da pergunta. Não me culpo, não tinha como saber.
Ela não se matou. Mas era como se tivesse se matado.
Dali em diante, para não sofrer tanto pensando em quem realmente era, ela resolveu dormir sua consciência e viver a vida como ela aparecia. Namorou, casou, teve uma filha, tomou seus Lexotans, dançou a Macarena na festa nas bodas de ouro de seus pais, falou "eu te amo" sem ter certeza, trocou amigos por estabilidade e nunca mais pensou se era quem deveria ser. Simplesmente foi.